A paternidade cristã diante da desconstrução familiar
Estou escrevendo este material no dia 08 de agosto, que antecede o Dia dos Pais, sendo que achei este artigo do pastor Lourenço Stelio Rega, que foi publicado no Jornal Batista, oportuno para esse momento, por isso o aproveito aqui, conforme segue:
A figura paterna atravessa as Escrituras Sagradas como um dos eixos mais profundos da revelação divina e da estruturação da sociedade. Longe de ser concebida como um mero construto social transitório, a paternidade na Bíblia reflete a própria natureza do Criador e a forma como ele se relaciona com a humanidade. Ao percorrer a narrativa bíblica do Antigo ao Novo Testamento, observa-se um desenvolvimento teológico e relacional contínuo a respeito do papel do pai.
No plano linguístico, a palavra “pai” no Antigo Testamento (no hebraico, ‘Ab) ocorre mais de 1.200 vezes. É revelador notar, contudo, que em todo o Cânon Hebraico o termo é aplicado diretamente a Deus em apenas cerca de 15 ocasiões, em que Deus revela sua majestade e soberania sendo chamado prioritariamente de Senhor, Criador e Rei. Em contrapartida, no Novo Testamento, a palavra “pai” (no grego, pater) aparece cerca de 413 vezes e, em mais de 250 dessas ocorrências, o termo se refere expressamente a Deus. Ouve–se aqui a revolução teológica promovida por Jesus Cristo, que ensina seus discípulos a se dirigirem ao Criador não com o distanciamento do medo, mas com a intimidade do termo “Abba”, expressão aramaica que traduz profunda confiança e afeto no relacionamento paternal.
As nuances entre os Testamentos revelam também uma mudança de ênfase na missão paterna. No Antigo Testamento, o pai figura fundamentalmente como o patriarca, o sacerdote da casa e o guardião da aliança pactual (bet ‘ab), encarregado de preservar o culto e transmitir a Lei às futuras gerações. No Novo Testamento, essa autoridade não é abolida, mas transformada pelo prisma da graça. O pai humano torna-se a imagem viva da paternidade celestial. Admoestado a não provocar a ira de seus filhos (Ef 6.4), o pai que figura no Novo Testamento lidera pelo serviço, pela paciência, pela disciplina graciosa e pelo amor sacrificial.
Ao longo do texto bíblico, encontramos retratos concretos dessa vocação. Abraão destaca-se como o pai da fé, chamado a ordenar sua casa na prática da justiça (Gn 18.19). Jó encarna o pai intercessor, que se levantava de madrugada para oferecer sacrifícios pela vida espiritual de seus filhos (Jó 1.5). José, o pai adotivo de Jesus, exemplifica a paternidade protetora, justa e obediente à voz divina. Na Parábola do Filho Pródigo (Lc 15), Jesus revela o ápice do amor paterno: um pai que respeita as escolhas do filho, mas permanece de braços abertos, para acolher, perdoar e restaurar.
O livro de Provérbios confere atenção especial à pedagogia paterna. O pai em Provérbios é o mestre que transmite o “musar” (instrução e disciplina), além disso, cabe a ele desafiar o filho a adquirir sabedoria, a afastar-se da tolice e a guardar o coração como fonte de vida (Pv 4.23). A correção paterna não procede da ira irrefletida, mas é apresentada como prova inequívoca do amor que deseja o melhor para o filho (Pv 3.12), com o objetivo de formar o filho como um indivíduo temente ao Senhor.
Projetar esse legado para o século XXI exige confrontar o ambiente cultural contemporâneo, marcado pelo culto à autonomia do indivíduo. Vamos lembrar que a palavra “autonomia” é derivada de duas outras palavras gregas: “autos” (eu mesmo) e “nomos” (lei), tornando-se a ideia de que o indivíduo é a norma e a lei para si próprio. Assim, cada pessoa é, ao mesmo tempo, o seu próprio legislador, legitimando os referenciais éticos próprios sem a conexão com o seu ambiente de convivência. Em outras palavras, o que é considerado como correto, certo e errado, é exatamente o que o próprio indivíduo estabelece para si. O que vale é atender esse critério e, muitas vezes, proveniente de suas próprias paixões. Além de ser seu próprio legislador, passa a também ser seu próprio juiz, para legitimar que sua vontade pessoal e autônoma é válida e deve ser respeitada. O resultado desse estilo de vida é a germinação de uma existência egocêntrica, na qual apenas o que o sujeito-indivíduo sente e quer é válido, ignorando a responsabilidade diante do próximo e da sociedade. Nesse cenário, vertentes individualistas passam a retratar a família como uma estrutura opressora e prejudicial ao livre desenvolvimento do ser humano.
Os valores bíblicos seguem em caminho diferente a essa ilusão egocêntrica, de modo a valorizar a liberdade responsável em vez da autonomia. Enquanto a autonomia isola o indivíduo em seu próprio ego, a liberdade bíblica é colaborativa e pactual, tornando a pessoa responsável diante de Deus e da comunidade. O pai cristão contemporâneo é chamado a ser um farol nesse contexto. Ser pai hoje significa exercer uma presença amorosa e firme que conteste o egocentrismo do filho. Ao transformar o lar em um espaço de graça, o pai demonstra que a família não é uma prisão opressora, mas o ambiente ideal onde o indivíduo aprende a renúncia, a responsabilidade, a generosidade e o amor ao próximo, espelhando a paternidade de Deus.
Pais e filhos têm diante de si esse desafio de unidos, construírem uma história que preserve a história e legado da família.
Carlos Trapp

Deixe um comentário